A Declínio Histórico e a Crise Humanitária
Raízes Milenares e o Cenário Atual
A Síria é historicamente reconhecida como um pilar fundamental para o surgimento e a expansão do Cristianismo. Suas terras abrigaram cidades icónicas como Antioquia, que, segundo o Novo Testamento, foram centros nevrálgicos para a formação das primeiras comunidades cristãs e para as rotas missionárias dos apóstolos. Esta profunda conexão histórica, que se manifesta em séculos de coexistência e enriquecimento cultural, confere à presença cristã síria um valor inestimável. Contudo, essa rica tapeçaria histórica contrasta dolorosamente com a realidade atual. De uma população cristã outrora robusta, restam hoje entre 300 e 400 mil fiéis, uma parcela alarmantemente pequena e majoritariamente composta por idosos. Este perfil demográfico invertido não apenas sinaliza um risco iminente de desaparecimento para a comunidade, mas também representa uma perda irreparável para a diversidade religiosa e para a preservação de um patrimônio histórico que moldou a civilização. O impacto transcende o aspecto religioso, atingindo a própria identidade cultural da Síria.
A Intensidade da Violência e Perseguição
A guerra civil síria desencadeada em 2011 mergulhou o país em uma espiral de violência indiscriminada, contudo, as comunidades cristãs, juntamente com outras minorias, foram desproporcionalmente afetadas. Bairros historicamente cristãos, como Midan em Aleppo, que se encontravam nas linhas de frente dos conflitos, tornaram-se alvos especialmente vulneráveis. O drama se aprofundou com a ascensão de grupos terroristas extremistas, que impuseram um regime de terror caracterizado por perseguições religiosas sistemáticas. Em cidades como Raqqa, sob o controle do Estado Islâmico, os cristãos foram submetidos a práticas brutais, incluindo a imposição de taxas discriminatórias, prisões arbitrárias, tortura e outros abusos desumanos. Relatos perturbadores emergem, como o sequestro de 230 civis em Al-Qaryatayn em 2015, entre os quais cerca de 60 cristãos siríacos, incluindo mulheres e crianças, evidenciando a vulnerabilidade extrema dessas populações. Além das vidas humanas, o vasto e milenar patrimônio cristão da Síria também foi alvo de destruição massiva. Locais de culto, igrejas e monastérios, alguns dos mais antigos do mundo, foram danificados ou deliberadamente visados e destruídos, apagando séculos de história e fé.
Fatores do Êxodo e a Resposta Humanitária
Causas Multidimensionais do Deslocamento
O êxodo em massa dos cristãos sírios é um fenômeno complexo, impulsionado por uma confluência de fatores interligados que transformaram a Síria em um lugar insustentável para muitos. A guerra civil, que já ceifou mais de 520 mil vidas e gerou milhões de refugiados e deslocados internos, foi o catalisador primordial. Paralelamente, a perseguição religiosa por grupos extremistas, as sanções internacionais que estrangularam a economia, o serviço militar obrigatório imposto a jovens e, mais recentemente, o devastador terremoto de 2023, criaram uma tempestade perfeita de adversidades. Ataques diretos contra igrejas e sequestros por milícias extremistas apenas agravaram a sensação de insegurança e desespero. O caso de Deir Ezzor é emblemático dessa catástrofe demográfica: de 7 mil cristãos antes de 2011, hoje restam apenas quatro em uma cidade que se encontra 75% destruída. Embora o regime de Bashar al-Assad tenha se posicionado como protetor das minorias, a realidade no terreno mostra que sua incapacidade de garantir segurança e estabilidade, somada à repressão política e às sanções, apenas exacerbou a crise econômica e social, forçando muitos a buscar refúgio e uma nova vida fora de sua terra ancestral. A falta de garantias de segurança e liberdade religiosa em áreas controladas pelo Estado também contribuiu para o fluxo migratório.
O Papel das Redes de Apoio e Educação
Em meio à devastação e ao êxodo, a resiliência das comunidades cristãs sírias se manifesta através de uma vasta e crucial rede de apoio humanitário e social. Apesar da escassez de dados precisos em um país que emerge de catorze anos de guerra, estimativas das próprias comunidades indicam que aproximadamente 2 milhões de sírios, de diversas afiliações religiosas, são beneficiados por essas iniciativas. As organizações cristãs desempenham um papel vital no campo humanitário, oferecendo suporte a pessoas com deficiência, promovendo a reconciliação em comunidades fragmentadas e fornecendo serviços essenciais. Muitos desses grupos emergiram e se fortaleceram justamente durante os anos mais sombrios da guerra, demonstrando uma capacidade notável de adaptação e serviço. A qualidade da assistência é um destaque: quatro hospitais cristãos em Damasco e Aleppo, por exemplo, atendem anualmente cerca de 117 mil pessoas de diferentes credos, sendo reconhecidos pela excelência de seus serviços. A educação é outra prioridade fundamental. As Igrejas estão profundamente engajadas, administrando 57 escolas que educam 30 mil alunos em todo o país. Estas instituições não apenas oferecem ensino tradicional, mas também promovem valores de paz e tolerância entre crianças de diversas religiões, fomentando um ambiente de coexistência. Esforços estão em andamento para recuperar 30 das 67 escolas que foram confiscadas, e a restauração de unidades educacionais em áreas devastadas, como Deir Ezzor e Suwayda, é vista como essencial para reacender a atividade missionária e restabelecer laços entre a pequena minoria cristã local e a população em geral. No entanto, preocupações crescem em relação a sinais de islamização e discriminação em materiais escolares, sublinhando a necessidade urgente de mecanismos de justiça e fundos internacionais para salvaguardar a diversidade religiosa no currículo. Um decreto ministerial que reinterpreta a história síria, removendo menções a deuses pré-islâmicos, exemplifica essa preocupação.
Desafios Persistentes e o Futuro da Fé na Síria
A comunidade cristã na Síria continua a pagar um preço alto pela prolongada guerra e instabilidade. A perda de propriedades e terras, combinada com um declínio social acentuado, atinge profundamente seus membros. Atualmente, 90% da população síria vive abaixo da linha da pobreza, e os cristãos, em sua maioria, estão inseridos nesse contexto de empobrecimento. O declínio demográfico é brutal: 80% da comunidade que existia há dois milênios desapareceu em apenas quatorze anos. Em cidades como Aleppo, apenas um sexto dos cristãos que lá viviam antes do conflito permanece. A pirâmide etária da comunidade está invertida, com mais de 50% dos membros acima dos 50 anos, e um declínio acentuado no número de jovens, ameaçando a continuidade da fé para as futuras gerações. Os primeiros meses sob as novas autoridades sírias, embora tenham trazido um leve fôlego econômico com o fim de algumas sanções, viram o ressurgimento de antigas divisões. A violência comunitária irrompeu em março contra os alauítas no litoral e, em junho, contra os cristãos, com um ataque sem precedentes à igreja de Mar Elias durante a Missa – um evento de rara e chocante gravidade, que nem mesmo nos piores anos da guerra havia ocorrido dessa forma. Mais recentemente, a comunidade drusa também se tornou alvo, e relatos de sequestros de mulheres alauítas com aparente conivência das autoridades, sinalizam uma escalada de tensões e insegurança em várias regiões do país. Contudo, em meio a esse cenário desafiador, há um diálogo aberto em andamento entre as Igrejas e o presidente de transição em Damasco. Patriarcas e bispos têm apresentado suas perspectivas sobre os desafios e as oportunidades para a comunidade. Embora o caminho para a estabilidade e a preservação da diversidade religiosa seja incerto e árduo, esses diálogos representam uma tênue esperança de que a Síria, berço de civilizações e de fé, possa um dia restaurar a plenitude de sua rica tapeçaria social e religiosa, garantindo um futuro para sua comunidade cristã.
Fonte: https://folhagospel.com