A Câmara dos Bispos da Igreja da Inglaterra anunciou o encerramento do processo Living in Love and Faith (LLF), uma extensa iniciativa lançada em 2017 para explorar questões complexas de identidade humana, sexualidade, relacionamentos e casamento dentro do contexto da fé anglicana. A decisão, formalizada por meio de uma carta divulgada nesta semana, marca a conclusão da fase principal de um diálogo que buscou discernir a posição da Igreja sobre a bênção de uniões e casamentos entre pessoas do mesmo sexo, bem como a permissão para que membros do clero pudessem estar em tais relações. Embora as 'Orações de Amor e Fé' para casais homoafetivos tenham sido aprovadas em 2023, propostas para serviços de bênção autônomos e a permissão para clérigos em uniões civis do mesmo sexo foram adiadas, aguardando um maior consenso e a devida autorização sob a lei canônica e um processo legislativo formal.
O Contexto e os Desdobramentos do Processo LLF
Desde sua criação, o Living in Love and Faith promoveu um profundo estudo e reflexão teológica e pastoral. Em fevereiro de 2023, o Sínodo Geral da Igreja da Inglaterra, seu órgão parlamentar e legislativo, aprovou as 'Orações de Amor e Fé'. Essas bênçãos públicas são destinadas a casais do mesmo sexo e podem ser integradas aos serviços religiosos regulares da Igreja, representando um passo significativo no reconhecimento pastoral.
Entretanto, a intenção de introduzir serviços de bênção com rituais próprios e a permissão explícita para que o clero da Igreja se envolva em casamentos civis do mesmo sexo enfrentou impedimentos. Em outubro passado, os bispos reconheceram que não possuíam a prerrogativa para implementar tais alterações sem uma autorização formal e integral, em estrita observância da lei canônica da Igreja – o corpo de leis e regulamentos que governa a Igreja da Inglaterra.
Ausência de Consenso e Caminhos Futuros
A carta recém-publicada pela Câmara dos Bispos reafirma a necessidade de autorização canônica para serviços de bênção personalizados e um processo legislativo formal para a permissão do clero em casamentos civis do mesmo sexo. Apesar de um alto grau de consenso para explorar esses caminhos, os bispos constataram que não há 'consenso suficiente' no momento para avançar com propostas mais amplas, como a oficialização de casamentos do mesmo sexo nas próprias igrejas anglicanas.
O documento também aborda a questão do 'Ministério Episcopal Delegado' (Delegated Episcopal Ministry), um mecanismo que permitiria a opositores das bênçãos homoafetivas receber supervisão de bispos alinhados à sua perspectiva. Essa opção foi suspensa em outubro e a carta reitera que não será implementada nesta fase, embora a Comissão de Fé e Ordem deva realizar reflexões teológicas adicionais sobre o tema para futura consideração.
A Próxima Etapa: Grupo de Trabalho e Recomendações
Com o objetivo de evitar a repetição de 'ciclos de esperanças ou ansiedades que são apenas para serem desapontadas', a liderança da Igreja comissionou um Grupo de Trabalho. Este grupo terá a incumbência de examinar detalhadamente os argumentos teológicos e as vias legais para a eventual aprovação de serviços de bênção específicos e para permitir que o clero celebre casamentos com pessoas do mesmo sexo, além de considerar provisões pastorais proporcionais ligadas a essas mudanças.
Os bispos têm a intenção de apresentar as recomendações deste Grupo de Trabalho ao Sínodo Geral dentro dos primeiros dois anos do novo quinquênio sinodal. A expectativa é que o debate sobre diferenciação e jurisdição alternativa, juntamente com a questão do casamento do clero do mesmo sexo, continue nos próximos anos, com um apelo para que essas discussões se deem em um espírito de 'honestidade, graça e respeito mútuo'.
O Bispo de Winchester, Philip Mounstephen, ao comentar o encerramento do processo, expressou pesar pela 'dor e alguma raiva' que o LLF gerou em muitos, mas reiterou o compromisso da Igreja com um 'processo devido e apropriado' para avançar nas complexas questões que ainda persistem.