Um pastor cristão foi detido em um campo de refugiados no Sudão do Sul em 20 de janeiro, sob a acusação de sequestro, após uma jovem refugiada sudanesa ter se convertido ao cristianismo e sido expulsa de casa. Joseph Shawish, líder da Igreja Batista Glory, localizada no campo de Ajoung Thok, foi levado à delegacia por Hassan Ibrahim Kaki, irmão da recém-convertida Amona Ibrahim Kaki, de 18 anos, que havia abandonado o islamismo. As autoridades mantêm o pastor sob custódia, embora nenhuma acusação formal tenha sido apresentada até o momento.
A Conversão e a Fuga
Amona Kaki, originária da região das Montanhas Nuba, no Sudão, e residente no campo de Ajoung Thok, abraçou a fé cristã em dezembro passado, após dois anos de leitura secreta da Bíblia. Descoberta por sua família muçulmana, ela foi expulsa de casa em 8 de janeiro. Inicialmente, buscou abrigo em outra moradia dentro do próprio campo, antes de procurar proteção com um líder religioso fora das instalações dos refugiados. A família de Amona, desde então, tem proferido ameaças constantes contra a igreja, exigindo o retorno da jovem e culpando o pastor pela mudança de religião.
Líderes religiosos recusaram-se a entregar Amona de volta à sua família, citando o alto risco de violência. Um desses líderes expressou a preocupação: “Não permitiria seu retorno, pois conheço bem a reação da família. Eles não estão contentes com a decisão da moça, e ela é muito jovem; seria arriscado para ela voltar.”
Ameaças e Medo
Amona Kaki relatou temer por sua vida caso seja forçada a voltar para casa. Ela descreveu ameaças diretas de sua família: “Minha mãe pegou uma pedra e me expulsou, e meu irmão mais velho disse que um de nós teria que morrer, pois jamais viveríamos juntos na mesma casa. Ele afirmou que, enquanto vivesse, não me permitiria morar lá.” Sua jornada de fé começou quando encontrou uma Bíblia no quarto do irmão, lendo-a secretamente e orando durante os estudos, o que a levou a depositar sua fé em Cristo após sentir suas orações respondidas.
A revelação pública de sua fé ocorreu em 25 de dezembro, após participar de um culto em 30 de novembro. Um muçulmano que a viu na celebração informou sua família, desencadeando a crise.
Apelo por Proteção e Contexto Regional
Diante da situação, líderes religiosos têm pressionado o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) – a principal agência global dedicada à proteção e assistência de refugiados – a intervir. O apelo visa garantir proteção e, se necessário, reassentamento para Amona e outros em situações similares. A preocupação regional com a falta de segurança para refugiados convertidos ao cristianismo na África Oriental é crescente.
A situação de Amona reflete desafios maiores de liberdade religiosa na região. O Sudão, país de origem da jovem, é predominantemente muçulmano (93%), com cristãos representando uma minoria de 2,3%, segundo dados do Projeto Joshua. A nação tem um histórico de perseguição religiosa, sendo classificada em 4º lugar na Lista Mundial da Perseguição 2026 (LMP) da organização Portas Abertas, que monitora a perseguição a cristãos globalmente. Embora tenha havido melhorias nos últimos anos – o Departamento de Estado dos EUA removeu o Sudão da lista de Países de Preocupação Especial (CPC) em 2019 e da lista de vigilância em 2020 – o contexto ainda apresenta vulnerabilidades significativas para minorias religiosas.