Em um marco histórico para a Igreja da Inglaterra, Dame Sarah Mullally foi oficialmente empossada como a 106ª Arcebispa de Canterbury, tornando-se a primeira mulher a ocupar este cargo fundamental em mais de 1.400 anos de história da instituição. A cerimônia de instalação, que ocorreu na majestosa Catedral de Canterbury, coincidiu com a celebração da Festa da Anunciação e simboliza o início formal de seu ministério público como a principal líder eclesiástica na Inglaterra e a figura espiritual da Comunhão Anglicana global, uma comunidade que reúne aproximadamente 85 milhões de membros internacionalmente.
O evento atraiu cerca de 2.000 convidados, incluindo personalidades como os Príncipes de Gales e o Primeiro-Ministro Sir Keir Starmer. Líderes cristãos de diversas denominações e tradições, tanto da Igreja da Inglaterra quanto da Comunhão Anglicana mais ampla, também estiveram presentes, sublinhando a importância ecumênica da posse.
Um Legado de Inovação e Representatividade
A nomeação de Mullally representa um ponto culminante na evolução da Igreja da Inglaterra em relação ao papel das mulheres em sua hierarquia. Após séculos de exclusão, a igreja iniciou a ordenação de mulheres como diaconisas em 1987, sacerdotisas em 1994 e, mais recentemente, bispas em 2014. A ascensão de uma mulher ao cargo de Arcebispo de Canterbury, que além de ser o líder sênior da Igreja da Inglaterra, atua como o Primaz de Toda a Inglaterra e o chefe simbólico da Comunhão Anglicana mundial, envia uma mensagem poderosa de inclusão e modernização para uma instituição com raízes profundas na história britânica e na reforma protestante.
Trajetória Pessoal e Simbolismo na Cerimônia
Antes de sua ordenação eclesiástica, Dame Sarah Mullally construiu uma distinta carreira no Serviço Nacional de Saúde (NHS) britânico. Essa experiência de vida foi reverenciada durante sua instalação: entre os convidados, destacavam-se enfermeiras e cuidadores do NHS, e o fecho de sua capa e mitra – vestimentas litúrgicas – foi confeccionado a partir da fivela do cinto que ela usava em seu uniforme de enfermeira. Sua chegada à Catedral de Canterbury foi precedida por uma peregrinação de seis dias, a pé, desde a Catedral de St Paul, em Londres, um gesto que reforça sua conexão com a fé e a comunidade.
Desafios e a Visão para o Futuro da Igreja
A posse de Mullally ocorre em um período de consideráveis desafios para a Igreja da Inglaterra e para a Comunhão Anglicana global. Questões como as divisões internas em torno da sexualidade, preocupações com a salvaguarda e o declínio na frequência às igrejas são pautas urgentes. Adicionalmente, movimentos como o Gafcon têm expressado desengajamento em relação à autoridade de Canterbury, evidenciando as tensões existentes. No entanto, seus apoiadores a veem como uma líder conciliadora e experiente, capaz de trazer estabilidade e um "pulso firme" para a instituição, conforme expressou o Dr. David Monteith, Deão de Canterbury, que saudou a esperança renovada que cada novo arcebispo traz.
Tradição e Modernidade na Cerimônia de Instalação
A liturgia da instalação, cujo tema central foi "Jesus, o Bom Pastor", mesclou séculos de tradição com símbolos contemporâneos. Dame Sarah foi sentada na histórica Cadeira de Santo Agostinho – uma relíquia associada ao primeiro arcebispo de Canterbury no século VI – e recebeu seu báculo pastoral, emblema de sua função de guia espiritual. Um aspecto notável da cerimônia foi a utilização de uma Bíblia moderna para o juramento, um afastamento da prática de quase 60 anos de usar os frágeis Evangelhos de Agostinho, datados do século VI, por questões de conservação.
A diversidade da Comunhão Anglicana foi celebrada com uma oração proferida em Bemba, idioma da Zâmbia, pelo Primaz da África Central, e a leitura do Evangelho realizada em espanhol pela Bispa Alba Sally Sue Hernández García, Primaz interina da Igreja Anglicana do México. As escolhas de hinos da Arcebispa Mullally, "Tell Out My Soul" e "Praise My Soul the King of Heaven", complementaram a solenidade do evento.