Um novo relatório divulgado pela organização Christian Solidarity Worldwide (CSW) denuncia um alarmante agravamento da liberdade religiosa na Nicarágua, com um aumento substancial no número de violações registradas em 2023. O documento aponta que o governo nicaraguense, sob o regime de Daniel Ortega, tem intensificado a repressão contra grupos religiosos, utilizando táticas que geram um profundo "clima de medo" e desencorajam denúncias.
A análise da CSW detalha que as violações da liberdade de crença saltaram para 309 casos em 2023, um aumento considerável em comparação com os 222 incidentes documentados em 2022. A organização alerta que o total real de violações pode ser significativamente maior, dada a atmosfera de intimidação que impede muitas vítimas de reportar os abusos.
Entre as estratégias repressivas documentadas, líderes religiosos são frequentemente submetidos a "medidas de precaução", exigindo apresentações semanais à polícia e a obtenção de permissão prévia para realizar atividades e eventos religiosos. Há também relatos de detenções prolongadas de pastores e a proibição da entrada de estrangeiros portando Bíblias no país.
Um exemplo emblemático dessa perseguição é o caso do pastor Efrén Antonio Vílchez López, condenado a 23 anos de prisão. Grupos de direitos humanos classificam as acusações como "forjadas", atribuindo a verdadeira motivação da sentença à sua crítica ao governo atualmente no poder, caracterizando-a como perseguição política sob o véu de acusações criminais.
Crescente Repressão desde 2018
A deterioração da situação religiosa e dos direitos humanos na Nicarágua não é um fenômeno isolado. De acordo com a organização Portas Abertas, o país ocupa a 32ª posição na lista das nações onde cristãos enfrentam maior perseguição global. Esse cenário se acentuou drasticamente desde 2018, ano marcado por uma série de protestos antigovernamentais que foram brutalmente reprimidos pelo regime de Daniel Ortega, culminando em uma repressão generalizada contra vozes dissidentes, incluindo as de grupos religiosos.
Anna Lee Stangl, Diretora de Advocacia e da Equipe das Américas da CSW, enfatiza que a organização tem acompanhado a "deterioração contínua da situação da liberdade de religião ou crença e de outros direitos humanos na Nicarágua" por anos. Ela aponta que, embora o regime possa ajustar suas táticas – como libertar presos políticos para prisão domiciliar em vez de forçá-los ao exílio – seu objetivo central permanece o controle, a cooptação ou a eliminação de qualquer voz que considere uma ameaça à sua autoridade e sobrevivência política.
Diante desse panorama, Stangl reitera a importância de a comunidade internacional intensificar o apoio a "vozes independentes no país, incluindo as de grupos religiosos". Ela sugere que, dada a persistente falta de resposta do governo nicaraguense às comunicações internacionais, medidas para responsabilizar outros Estados que apoiam o regime deveriam ser consideradas, visando pressionar por mudanças efetivas.