Um novo manifesto lançado pelo grupo 'Save the Parish' em Londres, antes das eleições para o Sínodo Geral da Igreja da Inglaterra, exige uma reorientação massiva dos recursos financeiros da instituição. O movimento apela para que os fundos, incluindo a dotação de £11.6 bilhões gerida pelos Comissários da Igreja, sejam prioritariamente direcionados ao ministério paroquial local, em detrimento de programas centralizados que, segundo o grupo, falham em apresentar resultados e ameaçam a própria essência da Igreja.
De acordo com o Reverendo Marcus Walker, presidente do 'Save the Parish', a Igreja da Inglaterra enfrenta uma 'crise existencial'. Em conferência de verão do grupo, Walker alertou que o risco iminente não se limita à perda de edifícios históricos ou à remuneração clerical, mas à desintegração do que ele descreve como a própria identidade fundamental da Igreja Anglicana.
O documento, que apresenta seis compromissos, clama por um engajamento renovado com as igrejas paroquiais, o clero e as congregações locais. Ele argumenta que o propósito original do fundo dos Comissários da Igreja — o apoio ao ministério paroquial remunerado e à 'cura das almas' (o cuidado espiritual dos fiéis) — deve ser restaurado. Adicionalmente, o manifesto sugere que a receita da 'parish share' (contribuição financeira das paróquias para as dioceses) seja explicitamente direcionada à missão e ao cuidado espiritual.
Atualmente, o 'Save the Parish' afirma que apenas uma fração mínima da receita distribuível dos Comissários é destinada diretamente ao ministério paroquial. Essa prática tem gerado crescentes pressões financeiras sobre as dioceses, resultando em cortes no número de clérigos e no fechamento de igrejas em todo o país. A manifestação destaca que até 2018, as decisões de gasto da dotação exigiam 'consideração particular pela provisão da cura das almas nas paróquias onde tal assistência é mais necessária'. Essa salvaguarda foi enfraquecida em 2018, permitindo o desvio de milhões de libras do ministério paroquial, conforme o manifesto.
Críticas aos Modelos Centralizados de Financiamento
O Reverendo Walker ressaltou que a primeira prioridade é 'reequilibrar as finanças da Igreja da Inglaterra', um desafio que ele antecipa ser árduo. Ele argumenta que o dinheiro em questão não pertence aos órgãos centrais, mas é proveniente diretamente das paróquias – somando £319 milhões anualmente em 'parish share' – ou foi doado em perpetuidade para financiar o ministério paroquial. 'Não existe 'financiamento central da Igreja'. Existe apenas o dinheiro dado pelas paróquias ou o dinheiro deixado para as paróquias', declarou, criticando a apropriação desses recursos.
Fundado em 2021 em resposta a preocupações crescentes sobre fechamentos de igrejas e centralização de fundos, o 'Save the Parish' congrega anglicanos de diversas tradições teológicas unidos pelo objetivo de fortalecer o sistema paroquial. Walker criticou veementemente o modelo de financiamento estratégico da Igreja, sustentando que ele falhou em entregar os resultados prometidos, ao mesmo tempo em que incentivou cortes no ministério paroquial.
Desigualdade e Fechamento de Igrejas
O manifesto apresenta dados alarmantes sobre o fechamento de igrejas, citando uma pesquisa da Church Action on Poverty. Segundo o estudo, 40% dos fechamentos ocorrem nas 10% das paróquias mais carentes do país, indicando que igrejas em áreas de menor poder aquisitivo são aproximadamente cinco vezes mais propensas a fechar do que as situadas em regiões mais ricas. O grupo qualifica essa tendência como um 'abandono dos pobres'.
Walker associou este padrão a uma crítica mais ampla aos esquemas de 'desenvolvimento estratégico' financiados centralmente, uma abordagem adotada pela Igreja a partir de 2017 em substituição a fórmulas diretas de financiamento. Ele citou uma análise independente conduzida por Sir Robert Chote, ex-diretor do Office for Budget Responsibility, que revelou que a primeira fase deste modelo visava atrair 89.000 novos fiéis ao custo de £176 milhões, mas resultou em apenas cerca de 12.700 adesões. 'São £13.854 por novo discípulo. Amigos: eu teria conseguido um resultado muito melhor apenas usando suborno', ironizou Walker.
O Fenômeno das 'Megaparóquias'
Ao mesmo tempo, o manifesto denuncia a criação das chamadas 'megaparóquias', onde múltiplas igrejas foram consolidadas em grupos maiores, algumas contendo entre 20 e 30 congregações. Essa união é descrita como 'uma tarefa impossível para qualquer sacerdote'. Rev. Walker ilustrou com o exemplo de um esquema de fusão em Wigan, onde 29 paróquias foram unificadas em um único benefício com redução do número de clérigos. Embora projetado para economizar cerca de meio milhão de libras anualmente para a decania, a iniciativa resultou na queda de aproximadamente um terço na frequência e nas doações, e na deterioração das finanças da própria decania.
Para Walker, os cortes de financiamento não são o caminho para a revitalização da Igreja. Ele argumenta que as estratégias centralizadas correm o risco não apenas de esgotar o dinheiro das paróquias, mas, mais crucialmente, de esgotar o número de pessoas nas congregações. 'Sentados sobre o maior patrimônio eclesiástico que o mundo já conheceu e ninguém nos bancos. Isso tornará as igrejas muito mais fáceis de gerenciar também. Mas as paróquias e as dioceses, a essa altura, estarão falidas', concluiu, pintando um cenário sombrio para o futuro.