PUBLICIDADE

Arcebispo da Cantuária em Gana: Reparações Geram Polêmica

 (Photo: Lambeth Palace)

O Arcebispo da Cantuária, Justin Welby, realizou uma visita a locais históricos do tráfico negreiro em Gana, na África Ocidental, onde expressou profundo "lamento pela participação da Igreja no comércio de escravos". A viagem, que incluiu o emblemático Castelo de Cape Coast, serviu para reafirmar o compromisso da Igreja da Inglaterra com um controverso fundo de reparação de 100 milhões de libras, gerando intenso debate sobre a abordagem da instituição ao seu passado e às suas responsabilidades atuais.

Durante sua estadia no Castelo de Cape Coast, um ponto final de partida para africanos escravizados destinados às Américas, Welby proferiu uma oração em uma antiga capela anglicana situada acima das masmorras onde prisioneiros eram mantidos em condições desumanas. O Palácio de Lambeth, sede do Arcebispo, descreveu o local como um "símbolo doloroso do envolvimento da Igreja no tráfico transatlântico de escravos". Welby sublinhou a "imensa maldade" que impulsionou o comércio, enfatizando a falha em reconhecer o valor e a dignidade inerentes a cada indivíduo.

A iniciativa de justiça reparadora, denominada oficialmente Fundo para Cura, Reparação e Justiça (anteriormente conhecida como Project Spire), foi lançada em 2023. Sua criação seguiu uma pesquisa encomendada pela Igreja, que revelou ligações históricas entre o fundo de dotação Queen Anne’s Bounty — um predecessor dos Comissários da Igreja — e a escravidão transatlântica por meio de investimentos e doações. Este fundo visa investir 100 milhões de libras esterlinas em projetos destinados a comunidades afetadas pelo legado da escravidão.

No entanto, a implementação do fundo tem enfrentado obstáculos. Uma reunião recente do Sínodo Geral da Igreja da Inglaterra revelou que o registro do fundo junto à Charity Commission (órgão regulador de caridades no Reino Unido) foi atrasado por ações legais de oponentes. Além disso, a Igreja já destinou 1,15 milhão de libras para o projeto, um gasto que tem sido questionado em um momento de dificuldades financeiras para muitas paróquias locais.

Intensas Controvérsias e Voze críticas

A criação e o propósito do fundo de reparação têm gerado considerável resistência e debate. Críticos argumentam que a alocação de somas tão expressivas para o fundo é uma "política de gestos" enquanto inúmeras igrejas paroquiais no Reino Unido lutam para manter suas estruturas e serviços básicos, muitas delas com patrimônio arquitetônico valioso e em risco.

Perspectivas Históricas e Acusações de Hipocrisia

O Professor Nigel Biggar, da Universidade de Oxford, criticou a abordagem da Igreja, acusando nações africanas de "oportunismo cínico" e "hipocrisia espantosa" devido à sua própria cumplicidade histórica na escravidão. Ele argumenta que as reivindicações de reparação baseiam-se em uma "distorção da história", que ignora o contexto complexo do comércio de escravos na época.

O teólogo Ian Paul, em seu blog Psephizo, questionou os comentários de Welby em Gana. Ele apontou a ironia de a riqueza do Reino Ashanti, com cujo Rei o Arcebispo se encontrou, ter sido historicamente construída, em parte, sobre a escravidão, incluindo o uso de escravos na mineração de ouro e no comércio. Paul também indagou por que a liderança da Igreja da Inglaterra não celebra seu papel crucial na erradicação da escravidão, e questionou a premissa de que as gerações atuais podem "expiar os pecados do passado" como se nenhuma ação reparadora ou de arrependimento já tivesse ocorrido.

O historiador e autor Bijan Omrani ecoou sentimentos semelhantes, questionando por que o Arcebispo da Cantuária apenas lamenta, sem também "agradecer pelo trabalho do clero, políticos e pessoas comuns deste país que trabalharam incansavelmente para acabar com a escravidão". Omrani sugeriu ainda que as elites de Gana deveriam reconhecer sua própria "profunda cumplicidade no comércio" de escravos.

Crítica Política e Teológica

O deputado conservador Nick Timothy criticou a iniciativa como uma "política de gestos" que desvia recursos vitais de igrejas locais no Reino Unido, muitas das quais enfrentam desafios de manutenção. Timothy também lançou uma crítica teológica, argumentando que é impossível "arrepender-se pelos pecados dos outros" e que o perdão não deve ser condicional, em contraste com as declarações de Welby sobre a necessidade de mudança de comportamento e uma "jornada de arrependimento".

A visita do Arcebispo da Cantuária a Gana e o avanço do fundo de reparação sublinham a complexidade do legado da escravidão e os desafios enfrentados pela Igreja da Inglaterra ao tentar reconciliar seu passado histórico com as exigências de justiça contemporânea. O debate em curso reflete as divisões profundas sobre como as instituições modernas devem lidar com culpas históricas, as prioridades financeiras da Igreja e a interpretação multifacetada de eventos passados e suas ramificações globais.

Leia mais

PUBLICIDADE