Líderes da Comunhão Anglicana anunciaram um ambicioso plano para estabelecer ou revitalizar um milhão de igrejas em todo o mundo na próxima década, com o objetivo de aproximar a fé das comunidades e acolher aproximadamente 20 milhões de novos membros. A iniciativa, denominada 'Vision36', foi revelada durante a 19ª reunião do Conselho Consultivo Anglicano em Belfast e busca engajar todas as províncias e dioceses anglicanas na expansão da presença cristã entre 2026 e 2036.
A proposta, liderada pela Comissão da Comunhão Anglicana para Evangelismo e Discipulado, visa tornar a igreja mais acessível às populações globais. Conforme explicou o cônego Robert Sihubwa, da Igreja da Província da África Central, a essência do plano é eliminar a necessidade de longos deslocamentos para encontrar uma congregação anglicana, levando a igreja diretamente ao povo. Ele enfatizou o valor que o anglicanismo, como a terceira maior comunhão cristã global, tem a oferecer em termos de mensagem, comunidade e perspectiva.
O 'Vision36' abrange não apenas o estabelecimento de novas comunidades de fé, mas também a revitalização de congregações em declínio, que serão contabilizadas na meta de um milhão. A iniciativa está alinhada ao movimento global JC2033, que celebra o bicentenário da morte e ressurreição de Jesus Cristo, percebido como uma oportunidade para as igrejas renovarem seu engajamento com a evangelização e o discipulado.
A Crescente Influência Africana
Embora a expansão seja de caráter global, espera-se que o continente africano desempenhe um papel preponderante no sucesso da 'Vision36'. A África Subsaariana consolidou-se como o lar da maior população anglicana e, de acordo com análises do Pew Research Center, abriga agora 30,7% dos cristãos do mundo, superando a Europa. Esta mudança demográfica reflete uma tendência observada nas últimas décadas, onde o centro do cristianismo global se deslocou significativamente para a África.
A ausência de metas numéricas específicas para continentes ou províncias individuais permite que cada igreja membro da Comunhão Anglicana contribua conforme seu contexto local. Contudo, a proeminência da África foi evidenciada na própria apresentação da proposta por Sihubwa, um clérigo africano. Durante as discussões do conselho, delegados do Quênia e do Sudão do Sul compartilharam exemplos de iniciativas locais bem-sucedidas, como o uso de escolas religiosas para novas congregações e campanhas de oração provinciais que impulsionaram a multiplicação de igrejas.
Essa ênfase na África ocorre em um momento de rápido crescimento do cristianismo no continente, contrastando com a diminuição da frequência aos cultos em muitas igrejas europeias. As igrejas africanas são cada vez mais vistas como líderes em evangelismo, plantação de igrejas e discipulado dentro da Comunhão Anglicana.
Fundamentação Teológica e Legado
A Reverenda Eleanor Sanderson, da Igreja da Inglaterra, destacou que a 'Vision36' é fruto de trabalhos anteriores de comissões anglicanas que reconheceram a indissociabilidade entre evangelização e discipulado. Segundo ela, não era possível abordar um aspecto sem mencionar o outro, indicando uma abordagem holística para o crescimento da fé.
O ex-arcebispo Nick Drayson, da Igreja Anglicana da América do Sul, expressou confiança de que a Comunhão já estabeleceu bases sólidas para a iniciativa. Ele afirmou que a 'Vision36' se apoia na 'Década do Discipulado Intencional' da Comunhão Anglicana, um período que aprofundou a compreensão e a prática do discipulado entre os fiéis, preparando o terreno para este novo e ambicioso plano de expansão.