Desde o início da invasão em grande escala em fevereiro de 2022, as forças russas danificaram ou destruíram pelo menos 737 locais de culto na Ucrânia. A informação, divulgada pela organização ministerial Mission Eurasia, sediada na região, revela uma devastação generalizada que atinge diversas comunidades religiosas, com igrejas batistas e ortodoxas entre as mais afetadas, juntamente com sinagogas e mesquitas.
O relatório aponta que, do total de edifícios atingidos, aproximadamente 450 eram igrejas batistas. Este número é particularmente significativo, considerando que os batistas representam uma fatia minoritária da população ucraniana – cerca de 1% a 2% – mas constituem a maior comunidade evangélica do país. A estatística sugere um possível direcionamento deliberado contra essa denominação, levantando questões sobre a liberdade religiosa em zonas de conflito.
Perseguição a Líderes e Comunidades Protestantes
A pressão sobre os batistas e outras comunidades evangélicas é evidenciada por casos como o do pastor Sergey Ivanov, que liderava uma congregação no sul da Ucrânia ocupado. Relatos de redes de igrejas e observadores de direitos humanos indicam que Ivanov foi detido pelas forças russas sob acusações de colaboração com as autoridades ucranianas e de recusa em registrar sua igreja sob as leis russas impostas. Membros da igreja testemunharam a interrupção dos cultos e o fechamento do templo durante o interrogatório do pastor, um reflexo de uma tendência mais ampla de intimidação e controle sobre atividades religiosas não alinhadas a Moscou.
Igor Bandura, da União Batista Ucraniana, descreveu a destruição como algo que transcende os edifícios religiosos, abrangendo aldeias e cidades inteiras. "Tudo está destruído. Não apenas igrejas, mas vilas, cidades, tudo está destruído. Então, não há vida. Todos foram embora, e tudo está destruído", declarou, sublinhando a escala da devastação humanitária e estrutural provocada pela guerra.
A Igreja Ortodoxa como Alvo de Controle Político
A principal denominação da Ucrânia, a Igreja Ortodoxa, também tem sido alvo da agressão russa. A Igreja Ortodoxa Russa tem procurado impor sua autoridade sobre as estruturas eclesiásticas ucranianas, levando muitas congregações a se desvincularem da Igreja Ortodoxa Ucraniana (historicamente ligada ao Patriarcado de Moscou) para aderir à independente Igreja Ortodoxa da Ucrânia, reconhecida como autocéfala desde 2019. Autoridades de ocupação russas têm se apropriado de propriedades e templos ligados à Igreja Ortodoxa Ucraniana, usando a religião como uma ferramenta de propaganda e controle administrativo.
Em áreas sob ocupação russa, a prática religiosa tem sido cada vez mais atrelada a políticas estatais. Analistas observam que Moscou busca promover clérigos alinhados aos seus interesses, enquanto marginaliza ou remove líderes religiosos leais a Kyiv. Um exemplo notório é o do padre Serhii Mykhalchuk, da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, na Crimeia, que relatou assédio constante e pressões legais para despejo de sua catedral em Simferopol e apreensão de propriedades após a recusa em se recredenciar sob as leis religiosas russas.
Documentos e testemunhos apontam para a invasão de igrejas e a intimidação de sacerdotes ortodoxos por tropas russas, com o objetivo de humilhar e impor terror. Relatos descrevem padres sendo despojados de suas vestes, agredidos e expostos publicamente, simbolizando uma campanha mais ampla para erradicar a sociedade civil independente e impor instituições leais ao Kremlin, restringindo severamente a liberdade religiosa nas regiões controladas pela Rússia.