A Acadêmicos de Niterói, escola de samba que fará sua estreia no Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro em 15 de fevereiro de 2026, já se tornou o centro de uma intensa controvérsia. Seu enredo, concebido como uma homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, inclui elementos que satirizam fiéis evangélicos, com a representação de 'neoconservadores em conserva' portando livros que remetem à Bíblia. A revelação desses detalhes do desfile, ainda em fase de preparação, já desencadeou forte repercussão e múltiplas ações judiciais.
Com o tema 'Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil', o enredo da agremiação pretende narrar a trajetória política do petista na Marquês de Sapucaí. Contudo, foi a concepção de uma ala específica que gerou a maior parte das críticas. Denominada 'neoconservadores em conserva', ela visa retratar grupos conservadores através de fantasias que mimetizam latas, com desenhos de famílias tradicionais (pai, mãe e dois filhos). Conforme divulgado, alguns integrantes estão previstos para portar um livro vermelho com uma cruz dourada na capa, em clara alusão às Escrituras Sagradas.
Além dos evangélicos, a mesma ala concebida pela escola agrupa outros segmentos sociais que são associados ao que ela define como 'neoconservadorismo'. Entre eles estão fazendeiros ligados ao agronegócio, mulheres de alta renda e defensores do regime militar. A justaposição desses grupos na mesma alegoria foi interpretada como uma crítica multifacetada à visão da escola sobre o conservadorismo político e social brasileiro. No contexto nacional, o termo 'neoconservadorismo' frequentemente se associa a movimentos que defendem valores tradicionais, liberdades econômicas e uma agenda moral ou religiosa mais assertiva.
Embora a apresentação ocorra apenas no próximo ano, a escolha de homenagear um presidente da República em exercício já estabelece um precedente histórico. Luiz Inácio Lula da Silva será o primeiro mandatário no cargo a ser o tema central de um desfile carnavalesco no Rio de Janeiro. A Acadêmicos de Niterói, fundada em 2018, já se tornou alvo de inúmeras críticas nas plataformas digitais após a divulgação dos detalhes de seu enredo, que será parte da programação oficial do Carnaval 2026.
Repercussão Política e Ações Judiciais Preventivas
Em resposta à polêmica gerada pelo enredo, partidos e políticos de oposição ao governo Lula iniciaram movimentos legais. O Partido Novo protocolou uma representação junto ao Tribunal de Contas da União (TCU), solicitando a suspensão de um repasse de R$ 1 milhão destinado à Acadêmicos de Niterói pela Embratur, a Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo. Embora a área técnica do TCU tenha se manifestado favoravelmente ao bloqueio dos recursos, a decisão final do ministro relator, Aroldo Cedraz, foi pela manutenção do repasse.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e o deputado federal Kim Kataguiri (União Brasil-SP) também acionaram a Justiça contra o presidente, motivados pelo conteúdo do enredo da escola. Contudo, suas ações foram rejeitadas pela Justiça Federal. Adicionalmente, o Partido Novo e o deputado Kim Kataguiri apresentaram um pedido de liminar para proibir o desfile, o qual foi negado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Corte seguiu o parecer da ministra relatora Estela Aranha, indicada ao cargo pelo presidente Lula.
Críticas e Indignação de Líderes
Nas redes sociais, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) expressou veementemente sua crítica, afirmando que a 'fé cristã foi exposta ao escárnio'. Ele questionou a suposta imparcialidade da mídia na cobertura do evento, sugerindo uma disparidade de tratamento se a situação fosse inversa. “Calma, a esquerda não odeia a família conservadora, não. É tudo conspiração. Lembre-se disso na hora de votar este ano, evangélico. Observação: a Globo está colocando como ‘crítica’, mas, se fossem cristãos fazendo essa crítica contra qualquer outra religião, seria a terceira guerra mundial”, declarou.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) também se manifestou, classificando o ato como uma 'politiquice' disfarçada de manifestação cultural. Ela ressaltou que, embora o país seja laico, a laicidade não justifica a zombaria ou a humilhação de crenças. “A fé cristã foi exposta ao escárnio em nome da cultura travestida de politicagem. Dizem que o país é laico, mas laicidade não autoriza zombaria, nem humilhação. O que foi apresentado era conhecido, foi permitido e feriu milhões de brasileiros. Já imaginou se fosse ao contrário?”, pontuou.
Michelle Bolsonaro concluiu sua manifestação com um apelo à Frente Parlamentar Evangélica para que se posicione publicamente contra o que considerou um ataque aos cristãos. “Deus, na sua soberania, permite que cada um revele aquilo que carrega no coração. A verdade sempre vem à luz e, no tempo certo, separa o joio do trigo. Que a Frente Parlamentar Evangélica repudie esse escárnio”, finalizou.