Uma ala que satirizava 'neoconservadores' no desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói durante o recente Carnaval provocou intensa discussão entre líderes evangélicos. A representação, que abordava grupos tidos como opositores à agenda política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dividiu opiniões de figuras religiosas alinhadas a diferentes espectros ideológicos e reacendeu o debate sobre o papel da fé na esfera pública. A agremiação, em sua estreia no Grupo Especial da Marquês de Sapucaí, foi posteriormente rebaixada após a apuração dos resultados.
A Contextualização da Sátira
A Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), responsável pela organização do evento, esclareceu que a ala denominada 'neoconservadores em conserva' foi concebida como uma crítica aos setores que consistentemente se opõem ao governo Lula. Isso incluía posições contrárias a pautas como as privatizações e a proposta de fim da escala de trabalho 6×1. As fantasias dessa ala personificavam quatro arquétipos: o setor do agronegócio, a mulher de elite, defensores da Ditadura Militar e segmentos de grupos religiosos evangélicos.
A inclusão de representações que, para muitos, remetiam diretamente a evangélicos conservadores, tocou em um ponto sensível. Pesquisas recentes, como a divulgada pelo Datafolha em dezembro, indicam que o grupo evangélico figura entre os que registram maior índice de desaprovação ao governo Lula, com 49% dos entrevistados expressando insatisfação. Essa tensão preexistente no cenário político brasileiro amplificou a repercussão da sátira nas redes sociais, onde políticos conservadores e alguns líderes religiosos manifestaram descontentamento, compartilhando imagens que evocavam a ideia de 'famílias conservadoras em conserva'.
As Diferentes Perspectivas de Líderes Religiosos
O episódio gerou reações distintas no campo religioso. O pastor Pedro Barreto, da Igreja Comunidade Batista do Rio, manifestou 'profunda felicidade' ao se identificar como conservador. 'A Bíblia nos orienta a sermos distintos. A sociedade nos percebe como indivíduos que defendem seus ideais. Não me senti ofendido por ser conservador', declarou. Barreto também criticou a postura beligerante de alguns grupos evangélicos em manifestações durante o Carnaval, questionando a coerência com os ensinamentos cristãos.
Em contraste, o pastor Oliver Costa Goiano, coordenador nacional dos Evangélicos do PT e ministro da Igreja Batista da Lagoa, em Maricá (RJ), interpretou a sátira como uma transgressão. 'É um ambiente marcado pela ironia, houve também sátiras a figuras como o ex-presidente Jair Bolsonaro. Contudo, nem petistas nem o presidente Lula se expressariam dessa maneira', ponderou. Apesar da crítica, Goiano minimizou o impacto dessas representações no voto evangélico, argumentando que 'a maioria dos evangélicos é conservadora e não acompanha o Carnaval'.
Para o pastor Alexandre Gonçalves, da Igreja de Deus no Brasil, a visibilidade do desfile foi 'muito negativa' para a maior parte da comunidade evangélica, especialmente em um contexto pré-eleitoral. Ele apontou a presença e o suposto apoio do presidente ao evento como um fator agravante. 'Não é apenas responsabilidade da escola de samba, pois o presidente estava lá, endossando. Ele não é mal assessorado, está apostando tudo', afirmou. Gonçalves, que também atua como diretor do sindicato da Polícia Rodoviária Federal em Santa Catarina, salientou que a ação intensificou a polarização política, podendo fortalecer narrativas de cunho bolsonarista.
O Carnaval e a Fé Evangélica
Um ponto de convergência entre os três pastores consultados é a crença de que a fé evangélica não deve se associar a festividades como o Carnaval, frequentemente descrito como uma celebração hedonista. 'Nós aproveitamos o feriado para participar de retiros espirituais. No entanto, não podemos impor isso aos outros. O Brasil é um país diverso', refletiu Gonçalves, enfatizando a importância do respeito à pluralidade religiosa e cultural no país.