O deputado conservador britânico Nick Timothy apelou à Arcebispa da Cantuária, Sarah Mullally, para que a Igreja da Inglaterra reconsidere a alocação de um fundo de £100 milhões destinado a abordar suas ligações históricas com a escravidão. Timothy argumenta que os recursos seriam mais eficazmente empregados no apoio a igrejas paroquiais em dificuldades financeiras, incluindo edifícios históricos que enfrentam altos custos de reparação.
Em sua correspondência à Arcebispa Mullally, o parlamentar por West Suffolk enfatizou que a aplicação desses fundos para reparação não representa um uso adequado dos recursos eclesiásticos. Ele expressou profunda preocupação com a postura da liderança da Igreja em manter o esquema de compensação, oficialmente batizado de "Projeto Spire", especialmente após a reafirmação do compromisso da Arcebispa durante uma visita recente a Gana. Timothy sublinhou a importância das igrejas paroquiais como centros comunitários e elementos cruciais do patrimônio e identidade nacional, clamando por assistência urgente para sua manutenção.
Embora partilhe do "repúdio aos males da escravidão", o deputado rejeitou a premissa de que a Grã-Bretanha, ou seus cidadãos atuais, devam arcar sozinhos com os custos de um flagelo que ele descreveu como uma mancha na consciência da humanidade. Ele argumentou que ninguém vivo hoje esteve envolvido no tráfico de escravos, e que a nação já investiu somas significativas para erradicá-lo. Para Timothy, o Projeto Spire carece de uma base intelectual ou teológica crível, e "não se pode arrepender pelos pecados de outros", citando passagens bíblicas sobre a individualidade da culpa. Ele concluiu que o desvio desses fundos das paróquias para outras nações não apagaria injustiças passadas, mas causaria danos duradouros às comunidades que a Igreja se propõe a servir.
Contexto da Iniciativa e Reafirmação
O "Projeto Spire" foi lançado pela Igreja da Inglaterra para abordar seu envolvimento histórico no comércio transatlântico de escravos, incluindo investimentos em empresas ligadas à escravidão. A iniciativa visa financiar projetos que beneficiem comunidades impactadas, reconhecendo o papel da instituição em um período sombrio da história. A reafirmação do compromisso com o fundo pela Arcebispa Sarah Mullally ocorreu em Cape Coast Castle, um antigo local de tráfico de escravos em Gana, o que intensificou o debate sobre a aplicação dos recursos.
Divergências e Apoio à Crítica Parlamentar
A posição de Nick Timothy encontra eco em outras figuras públicas. Tim Dieppe, chefe de políticas públicas da Christian Concern, classificou o argumento para as reparações como "sinalização de virtude" e "falsa humildade e culpa". Ele questionou a base para o valor de £100 milhões, sugerindo que a Igreja deveria focar em combater formas modernas de escravidão, como o tráfico sexual e casamentos forçados, que ocorrem em diversas partes do mundo atualmente.
Outros parlamentares conservadores, como Katie Lam, também defenderam o redirecionamento dos fundos para a preservação do patrimônio eclesiástico. A Baronesa Foster, por sua vez, criticou o gasto proposto em um momento em que muitas igrejas anglicanas estão em deterioração, lembrando o papel do Reino Unido na abolição da escravidão. Simon Knott, do Suffolk Historic Churches Trust, apoiou Timothy, descrevendo o plano como "mal concebido e performático", sem base na realidade histórica.
O Debate Mais Amplo sobre Reparações
A discussão sobre reparação por injustiças históricas, como a escravidão, é um tema complexo e globalmente debatido. Enquanto defensores apontam para a necessidade de compensar o legado duradouro de danos econômicos, sociais e psicológicos, críticos levantam questões sobre a identificação dos beneficiários, a dificuldade de quantificar o impacto e a responsabilidade das gerações atuais por atos passados. O caso da Igreja da Inglaterra reflete essas tensões, colocando em xeque a melhor forma de uma instituição histórica lidar com seu passado e suas responsabilidades contemporâneas.