A Arcebispa da Cantuária, Sarah Mullally, recebeu recentemente o Rabino-Chefe Sir Ephraim Mirvis no Palácio de Lambeth, residência oficial do líder da Igreja da Inglaterra, para um encontro crucial. A reunião teve como objetivo principal abordar e tentar mitigar as tensões crescentes resultantes da decisão do Sínodo Geral da Igreja da Inglaterra de 'escutar' o controverso documento Kairos II, uma medida que gerou profunda angústia e dor na comunidade judaica britânica.
Após o diálogo, a Arcebispa Mullally expressou sua gratidão pela oportunidade de uma 'conversa franca' sobre os recentes acontecimentos. Ela manifestou profunda tristeza pelo sofrimento e angústia sentidos por muitos na comunidade judaica, assegurando que a Igreja Anglicana reconhece a conexão intrínseca do povo judeu com o Estado de Israel. Mullally enfatizou a necessidade de segurança e dignidade para todas as partes envolvidas no conflito israelo-palestino — cristãos, judeus e muçulmanos, palestinos e israelenses — e reiterou seu compromisso com a solidariedade à comunidade judaica britânica em tempos de fragilidade, além de orar pelos cristãos palestinos.
Em comunicado separado, o Rabino-Chefe Mirvis confirmou que o encontro abordou de forma 'abrangente' a deliberação sinodal sobre o Kairos Palestine II. Ele compartilhou com a Arcebispa a 'profunda dor' que a decisão provocou entre muitos membros da comunidade judaica, salientando que o documento contém 'elementos alarmantes e deploráveis'. Mirvis frisou a urgência de a Igreja Anglicana buscar meios para restaurar os laços danificados com a comunidade judaica.
O Documento Kairos II e a Decisão do Sínodo
O Sínodo Geral, principal corpo legislativo da Igreja da Inglaterra, reunido em York no início do mês, deliberou por 'escutar' o documento Kairos II, em vez de 'recebê-lo', como originalmente proposto. Essa distinção é relevante, pois 'escutar' implica em tomar conhecimento do conteúdo sem um endosso formal, enquanto 'receber' poderia sugerir um nível maior de aceitação. Produzido pelo movimento cristão palestino Kairos Palestine, o texto é altamente controverso por descrever a campanha militar de Israel em Gaza como genocídio e por caracterizar o país como um estado colonial de apartheid.
Previamente à votação, o Rabino-Chefe Mirvis havia exortado os membros do Sínodo a rejeitarem qualquer envolvimento com o documento, classificando-o como 'pouco mais que ativismo político disfarçado de teologia'. Ele criticou a decisão de se engajar com um 'documento repleto de falsidades' que 'utiliza retórica extrema para questionar a própria existência de Israel', alertando que, apesar de se apresentar como um caminho para o entendimento, atua como uma 'barreira gritante' a ele.
Repercussões e Críticas ao Posicionamento Anglicano
Diante das objeções levantadas por líderes judaicos, a Arcebispa Mullally esclareceu ao Sínodo que a 'audição' de documentos como o Kairos II não significa a concordância com todo o seu conteúdo. Contudo, essa ressalva não apaziguou as críticas e o desconforto na comunidade judaica.
No rescaldo da votação, uma coalizão de pastores, teólogos e leigos divulgou a 'Declaração Contra Kairos II', argumentando que o texto apresenta uma retórica 'imprecisa, unilateral e perigosa', que 'falsa e infundadamente acusa Israel de genocídio'. Regan King, um pastor londrino que coorganizou a declaração, classificou como 'assombroso' o fato de o Sínodo ter dado qualquer tipo de atenção ao documento, sugerindo que a Igreja se desviou de uma tradição histórica de apoio ao povo judeu, associada a figuras como o abolicionista William Wilberforce.
O teólogo anglicano Ian Paul, que se opôs à moção durante o debate sinodal, questionou a exclusividade das vozes palestinas no Sínodo. Ele indagou como a Igreja poderia buscar uma 'paz justa e duradoura' enquanto se recusava a ouvir os relatos das vítimas e dos feridos do ataque de 7 de outubro de 2023 e da Segunda Intifada. Paul também levantou preocupações sobre a aparente inconsistência no envolvimento da Igreja com comunidades cristãs palestinas que, em alguns casos, teriam celebrado atos de violência. Outros signatários da declaração incluem Rev. Hayley Ace, da Christian Action Against Antisemitism, e Dr. Juergen Buehler, presidente da International Christian Embassy Jerusalem.