PUBLICIDADE

Igreja da Inglaterra Retraumatiza Sobrevivente de Abuso em Resposta Deficiente

Um relatório independente concluiu que a Igreja da Inglaterra falhou gravemente em sua resposta a uma sobrevivente de alegados abusos sexuais e espirituais perpetrados por membros do clero, resultando em um 'retraumatismo' profundo. A análise, encomendada pela organização de proteção Thirtyone:eight e conduzida por Kevin Crompton, revelou que tanto a abordagem inicial às denúncias em 2001 quanto uma subsequente investigação nacional entre 2019 e 2022 agravaram o sofrimento de Jane Chevous. Chevous, cofundadora da Survivors Voices e vice-presidente do Painel Nacional de Proteção da Igreja da Inglaterra, renunciou ao seu direito ao anonimato para detalhar sua experiência.

Primeira Resposta (2001): Descaso e Proteção ao Acusado

As alegações de Chevous, que abrangem incidentes ocorridos entre 1979 e 1992, foram inicialmente reportadas à Diocese de Southwark em 2001. O relatório descreve que, na ocasião, a sobrevivente não recebeu uma 'resposta compassiva', mas sim uma postura de descrédito e hostilidade. A correspondência interna da época, por exemplo, referia-se a Chevous com termos pejorativos como 'interesseira', 'instável' e 'histérica', indicando um tratamento profundamente inadequado por parte do clero sênior.

O documento aponta que houve considerável apoio aos supostos perpetradores – dois ex-padres e clérigos seniores – enquanto faltava qualquer compaixão à vítima. Clero sênior teria focado no bem-estar do acusado, chegando a encorajar um encontro entre Chevous e o homem que ela acusava de estuprá-la. Além disso, a troca de informações com o acusado resultou em ameaças legais contra a sobrevivente, exacerbando seu sofrimento e comprometendo a integridade de qualquer possível investigação policial.

Apesar da ausência de políticas formais de proteção para adultos na Igreja naquele período, a revisão refutou enfaticamente a ideia de que isso justificaria a conduta. O relatório afirma que qualquer sacerdote deveria agir com compaixão diante de alguém em sofrimento que relata abuso, uma expectativa mínima de cuidado pastoral que não foi atendida pelo clero sênior da diocese.

Investigação Nacional (2019-2022): Foco Inadequado e Falhas Processuais

Uma segunda fase de investigação, conduzida pela Equipe Nacional de Proteção (NST) entre 2019 e 2022, após Chevous reapresentar suas alegações, também foi alvo de duras críticas. Embora o relatório reconheça o empenho de alguns funcionários, o processo foi marcado por atrasos significativos, falhas de comunicação, alta rotatividade de pessoal, registros inconsistentes e explicações insuficientes à sobrevivente sobre os procedimentos.

A crítica central à investigação da NST é que seu foco estava quase exclusivamente na avaliação de riscos atuais de proteção, negligenciando as necessidades dos sobreviventes. Chevous buscava reconhecimento do dano sofrido, um pedido de desculpas, responsabilização e alguma forma de justiça restaurativa. Contudo, o processo não foi concebido para atender a essas demandas, resultando em um impacto profundamente negativo em sua saúde mental.

O que são Safeguarding e Justiça Restaurativa?

No contexto institucional, 'safeguarding' (proteção ou salvaguarda) refere-se ao conjunto de políticas e procedimentos destinados a proteger crianças e adultos vulneráveis de danos, incluindo abuso e negligência. A justiça restaurativa, por sua vez, é uma abordagem que busca reparar o dano causado por atos criminosos ou conflitos, envolvendo a vítima, o ofensor e, por vezes, a comunidade na busca por soluções que promovam a cura, a responsabilização e a reconciliação, em vez de focar apenas na punição.

Consequências Devastadoras e Chamado à Reforma Urgente

O tratamento recebido pela Igreja teve consequências devastadoras para Jane Chevous, contribuindo para graves problemas de saúde mental, automutilação, tentativas de suicídio, perda de fé e anos de acompanhamento psicológico. O relatório sublinha que os processos da Igreja não são 'centrados na sobrevivente' nem 'informados sobre o trauma', e exige reformas substanciais na forma como as vítimas de abuso são tratadas em toda a instituição.

Entre as recomendações, a revisão propõe a criação de um caminho separado para que os sobreviventes possam buscar justiça restaurativa e reconhecimento dos danos sofridos, paralelamente às investigações de proteção. Também foram criticadas investigações anteriores por falta de profundidade, incluindo a perda de oportunidades de interrogar um bispo aposentado que se mudou para o exterior, o que prejudicou a busca por responsabilidade.

Apesar das falhas gerais, o relatório elogiou as ações complementares dos Bispos de Oxford e Southwark, que, após a conclusão da investigação da NST, tomaram medidas adicionais para oferecer uma 'resposta moral correta'. Essa iniciativa foi considerada 'extremamente útil' para Chevous. A revisão enfatiza, ainda, que a cultura de proteção varia consideravelmente entre as dioceses e depende em grande parte da liderança local, sugerindo a necessidade de uma padronização mais rigorosa e compassiva.

Leia mais

PUBLICIDADE