A Igreja da Inglaterra prossegue com seu controverso plano de estabelecer um fundo de £100 milhões destinado a compensar seus laços históricos com a escravidão transatlântica, mesmo diante de um desafio legal significativo. Durante a mais recente reunião do Sínodo, foi revelado que £1,15 milhão já foi investido no "Project Spire" e no proposto "Fundo para Cura, Reparação e Justiça", apesar das contestações sobre a legalidade e a adequação do uso de fundos de doação para tal propósito.
O "Project Spire" foi lançado em 2023, após uma investigação interna encomendada pelos Comissários da Igreja, que identificou ligações da "Queen Anne's Bounty" – um fundo de doação precursor – com a escravidão chattel transatlântica, através de investimentos e benfeitorias. O "Fundo para Cura, Reparação e Justiça" visa apoiar programas de investimento, pesquisa e engajamento em comunidades impactadas pela escravidão, com o objetivo de criar um legado duradouro de reparação. O Bispo de Norwich, Graham Usher, explicou que os gastos iniciais cobriram "pesquisa proporcional sobre as fontes históricas de fundos dos Comissários e consideração de respostas apropriadas, incluindo aconselhamento jurídico e engajamento das partes interessadas".
Apesar da intenção original de solicitar o registro do fundo junto à Charity Commission, o processo foi atrasado por uma contestação legal. O Bispo Usher confirmou que o projeto não foi abandonado, mas que o desafio jurídico está sendo tratado com seriedade. Ele citou a formalização da escravidão transatlântica pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2006 como "o crime mais grave contra a humanidade" para reforçar o "imperativo moral" da Igreja como investidor cristão e responsável em abordar a questão. O bispo reiterou a "indignação" da Igreja com seus elos históricos com a escravidão chattel africana e sua parte na perpetuação dos legados de um passado "abominável" que ainda afetam vidas hoje.
Crescente Oposição e Preocupações Legais
A iniciativa enfrenta resistência interna significativa. Pesquisas recentes indicam que 81% dos fiéis da Igreja acreditam que os fundos deveriam ser direcionados para apoiar as paróquias locais, enquanto 61% consideram a possibilidade de interromper o suporte financeiro caso o "Project Spire" avance. Críticos questionam a autoridade legal dos Comissários da Igreja para empregar fundos de doação dessa maneira, levantando dúvidas sobre a compatibilidade da proposta com seus deveres como fiduciários de caridade. Em resposta, o Bispo Usher assegurou que as despesas são aplicadas "apenas dentro dos propósitos e poderes de caridade" dos Comissários.
Crítica Política e Acadêmica
Entre os críticos mais vocais está Lord Nigel Biggar, professor de Oxford e teólogo anglicano, que argumenta que as reparações poderiam "privilegiar o sofrimento negro" em detrimento de outros. No ano passado, 27 parlamentares conservadores, incluindo a ministra sombra do Home Office, Katie Lam, endereçaram uma carta à Arcebispa de Cantuária, Sarah Mullally, instando-a a abandonar os planos. A missiva defendia que os fundos deveriam fortalecer as paróquias e não serem usados em "projetos de vaidade de alto perfil e legalmente duvidosos", citando que as regras da Charity Commission exigem que os fundos caritativos sejam utilizados para a finalidade pela qual foram doados, especificamente para apoiar o ministério paroquial, manutenção de edifícios e cuidado de registros históricos. Advertiram ainda sobre o precedente que seria estabelecido para outras instituições nacionais.
Adicionalmente, o Dr. Richard Dale, Professor Emérito da Universidade de Southampton e membro da Royal Historical Society, contestou a narrativa de que a "Queen Anne's Bounty" se beneficiou financeiramente do comércio de escravos. Escrevendo em um blog de teologia, ele alegou que essa narrativa era "demonstravelmente falsa", sugerindo que os assessores históricos e líderes da Igreja podem ter induzido o público a erro sobre essa conexão.