O conflito na Ucrânia, que marca dois anos da invasão em larga escala de 2022 e se estende por uma década desde 2014, testemunha uma acentuada escalada na perseguição religiosa dentro dos territórios sob ocupação russa. Relatórios de organizações de direitos humanos e líderes religiosos detalham uma campanha sistemática de assédio, violência e supressão direcionada primariamente a congregações protestantes e a ramos da Igreja Ortodoxa que não estão alinhados a Moscou. Este esforço concertado visa remodelar o panorama religioso, forçando um alinhamento com os objetivos políticos e militares da Federação Russa.
Ataque Sistemático a Congregações Protestantes
Desde o início da invasão em larga escala, as autoridades de ocupação implementaram medidas rigorosas para restringir ou eliminar grupos religiosos considerados hostis. As igrejas protestantes, em particular, enfrentam fechamentos forçados, impedimentos operacionais e uma pressão intensa para se registrarem sob as leis da Federação Russa. Este requisito, que implica um reconhecimento tácito da soberania russa, tem sido veementemente recusado por muitas congregações, que preferem operar na clandestinidade a se submeterem ao novo regime.
Inúmeros relatos documentam detenções, interrogatórios e confisco de propriedades eclesiásticas. Um caso emblemático é o do Pastor Sergey Ivanov, líder batista no sul da Ucrânia ocupada, que teria sido detido por forças russas. As acusações incluíam colaboração com autoridades ucranianas e a recusa em registrar sua igreja segundo as novas regulamentações. Membros de sua congregação reportaram interrupções nos cultos e o fechamento efetivo de seu templo durante o período de interrogatório do pastor, ilustrando a pressão generalizada sobre as comunidades evangélicas e batistas.
Restrições Também Afetam Igrejas Ortodoxas Independentes
A repressão não se limita às denominações protestantes. Clérigos da Igreja Ortodoxa da Ucrânia (OCU), que declarou independência do Patriarcado de Moscou, também têm sofrido significativas restrições. Na Crimeia, península anexada pela Rússia em 2014, o Padre Serhii Mykhalchuk enfrentou assédio recorrente e desafios legais. Sua paróquia foi alvo de uma ordem de despejo da catedral em Simferopol, e bens da igreja foram apreendidos após a comunidade se recusar a se registrar sob as leis religiosas russas, que ligam as estruturas eclesiásticas a Moscou.
Cooptação Religiosa como Estratégia de Controle
Analistas e defensores da liberdade religiosa interpretam essas ações como parte de uma estratégia mais ampla para desmantelar a sociedade civil independente e substituí-la por instituições subservientes a Moscou. Comunidades protestantes, historicamente ativas em iniciativas de bem-estar social e ajuda humanitária em toda a Ucrânia, são frequentemente alvo de escrutínio e acusações das autoridades de ocupação, muitas vezes relacionadas a supostos laços com governos ocidentais.
Paralelamente, autoridades russas têm utilizado estruturas ligadas à Igreja Ortodoxa Ucraniana (UOC), que tradicionalmente mantinha laços com a Igreja Ortodoxa Russa, para promover sua agenda geopolítica. Em zonas ocupadas, a UOC tem sido progressivamente empregada como canal para mensagens políticas e controle administrativo, desvanecendo as fronteiras entre a vida espiritual e a política estatal. Críticos argumentam que esta abordagem representa uma cooptação explícita de organismos religiosos para legitimar a dominação russa sobre os territórios ocupados.
Consequências para a Liberdade de Crença
Embora muitos fiéis ortodoxos se esforcem para praticar sua fé independentemente da interferência política, os poderes de ocupação promovem ativamente clérigos alinhados a Moscou, enquanto marginalizam ou expulsam líderes religiosos leais a Kyiv. Observadores de direitos humanos alertam que o efeito cumulativo é uma severa constrição da liberdade religiosa, transformando locais de culto em instrumentos de controle estatal e aprofundando a alienação das populações locais. O contínuo direcionamento a diversas instituições religiosas ressalta uma intenção mais ampla de moldar a sociedade ucraniana sob o domínio russo, tornando a situação das comunidades religiosas um indicador crucial do estado geral dos direitos humanos no conflito.