A Complexidade do Racismo Religioso e os Dados Preocupantes
A Amplitude da Pesquisa e Seus Achados Principais
O estudo abrangente que fundamenta estas revelações foi fruto da colaboração de importantes instituições, incluindo a Coordenação de Liberdade Religiosa (CGLIB) e a Secretaria de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos (SNDH), ambas vinculadas ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). Somaram-se a este esforço o Grupo de Pesquisa Museologia Experimental e Imagem (MEI) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), a Defensoria Pública da União (DPU) e o Instituto Raça e Igualdade. A metodologia da pesquisa envolveu a escuta ativa de líderes de 511 terreiros, abrangendo diversas geografias do território nacional. As vozes desses líderes trouxeram à tona uma série de vivências dolorosas, detalhando a natureza multifacetada das agressões sofridas, que se manifestam em dimensões físicas, psicológicas e até mesmo na esfera simbólica.
Os resultados obtidos pintam um quadro alarmante: 77% dos terreiros entrevistados afirmaram ter sido vítimas de racismo religioso. Ainda mais impactante é o dado de que 74% das lideranças religiosas reportaram ameaças diretas ou, em casos mais graves, a destruição de seus locais sagrados. Contudo, talvez um dos números mais críticos seja a baixa taxa de registro formal dessas ocorrências: apenas cerca de 26% das vítimas conseguiram registrar boletins de ocorrência. Este fato sugere uma subnotificação massiva dos crimes de intolerância e racismo religioso, possivelmente devido à falta de confiança nas autoridades, receio de retaliação ou desconhecimento dos procedimentos legais. No cerne dessas agressões, o levantamento identificou os evangélicos como o grupo principal por trás de 59% dos ataques registrados, um percentual que impõe um desafio considerável para o diálogo inter-religioso e a compreensão mútua no Brasil. Tais dados não apenas expõem a vulnerabilidade das religiões de matriz africana, mas também demandam uma análise aprofundada das motivações e consequências desses atos para a coesão social.
Perspectivas Teológicas e a Visão Evangélica sobre a Intolerância
Análise da Intolerância sob a Ótica Cristã e Justificativas para a Hostilidade
A discussão sobre a intolerância religiosa, em especial a que envolve a comunidade evangélica, é complexa e multifacetada, envolvendo interpretações teológicas e sociológicas. O pastor Helio Carnassale, palestrante e consultor internacional em Liberdade Religiosa, além de mestre em Ciências da Religião, oferece uma perspectiva sobre as raízes desse fenômeno. Segundo Carnassale, a intolerância religiosa frequentemente brota de um profundo senso de exclusividade, onde determinados fiéis acreditam que sua fé detém a verdade absoluta, desqualificando e, por vezes, “punindo” as demais crenças. Ele argumenta que qualquer manifestação de intolerância, seja verbal, física ou emocional, parte da premissa equivocada de que aqueles que divergem dessa “verdade única” não merecem espaço, voz ou o direito fundamental de escolha. Ao negar a liberdade religiosa do outro, nega-se um direito humano básico, fundamental para a dignidade da pessoa. Carnassale enfatiza que discordar da escolha religiosa de alguém não concede o direito de praticar a violência ou a agressão, uma vez que a Constituição Federal brasileira assegura a todos o mesmo direito de escolher e praticar sua fé.
Adicionalmente, o pastor Carnassale ressalta que a intolerância religiosa contradiz abertamente os princípios centrais da fé cristã. Ele cita passagens bíblicas como Mateus 22, onde Jesus exorta a “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração […] E o segundo semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Outras passagens, como Mateus 5:43 (“Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”) e Mateus 7:12 (“Tudo quanto pois quereis que os homens vos façam, assim fazei vós também a eles”), são apresentadas como pilares que deveriam inibir qualquer forma de ódio, perseguição ou injúria, especialmente por motivos religiosos. Para Carnassale, o cristianismo, em sua essência, é uma religião do amor, e a prática da intolerância desvirtua essa premissa fundamental.
Por outro lado, o pastor Amauri Oliveira, presidente da Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT), apresenta uma visão que diverge em alguns pontos. Ele questiona a terminologia “racismo religioso”, argumentando que o racismo está intrinsicamente ligado à raça, e não à crença. Como base para seu argumento, Oliveira menciona dados do IBGE de 2022, que indicam que uma parcela significativa dos praticantes de religiões afro-brasileiras é branca (42,7%), enquanto pardos representam 33,1% e pretos, 17,1%. Para ele, este dado sugere que a questão transcende a racial, focando mais na essência das práticas religiosas. Oliveira reconhece que existe uma postura mais agressiva de alguns evangélicos em relação às religiões de matriz africana. Ele explica que, na visão de uma parcela dos evangélicos, entidades como “caboclos” ou orixás são frequentemente interpretadas como demônios, levando à percepção de que esses cultos seriam nocivos tanto para seus adeptos quanto para a sociedade. Essa interpretação equivocada, na qual os “adoradores” de tais entidades são vistos como “inimigos” associados a demônios, seria a fonte da agressividade de alguns evangélicos, não a cor da pele dos praticantes, mas a própria natureza das práticas religiosas. Contudo, Oliveira faz questão de pontuar a necessidade imperativa de respeito aos adeptos e aos espaços sagrados dessas religiões, ainda que admita que nem todos os evangélicos compartilham desse entendimento. Ele observa que os segmentos neopentecostais, em particular, e entre eles muitos ex-praticantes de cultos de matriz africana, são os que demonstram maior hostilidade e desrespeito.
Em uma terceira perspectiva, o pastor Sandro de Oliveira Lopes, líder da Igreja do Evangelho Quadrangular de Itapuã, em Vila Velha, expressa cautela em relação aos dados da pesquisa. Ele aponta a ausência de detalhes sobre a metodologia do estudo e a forma como os dados foram aferidos, o que, para ele, dificulta uma estimativa precisa da realidade do preconceito praticado por evangélicos. Embora não negue a existência do preconceito, Lopes questiona a validade dos números sem informações adicionais sobre o perfil dos entrevistados, como número de pessoas, escolaridade, renda per capita, tempo de frequência à igreja e localidade geográfica. Apesar de suas ressalvas metodológicas, ele reitera o princípio fundamental de que todos têm o direito de cultuar conforme sua fé, destacando a importância da liberdade de culto em um estado laico como o Brasil.
Desafios e Caminhos para a Paz Inter-religiosa no Brasil
A realidade da intolerância e do racismo religioso no Brasil, evidenciada pela pesquisa e pelas diversas perspectivas teológicas, apresenta um dos maiores desafios para a construção de uma sociedade verdadeiramente plural e respeitosa. A Constituição Federal garante a liberdade de crença e a laicidade do Estado, princípios que deveriam ser a base para a convivência pacífica entre todas as fés. No entanto, o cenário de agressões físicas, emocionais e simbólicas contra comunidades de matriz africana, com a notória participação de evangélicos em grande parte desses incidentes, revela uma dissonância profunda entre o ideal constitucional e a prática cotidiana.
A síntese das visões apresentadas pelos pastores Carnassale, Oliveira e Lopes sublinha a complexidade do problema. Enquanto Carnassale aponta para a contradição entre a intolerância e os ensinamentos bíblicos de amor ao próximo, Oliveira tenta contextualizar a hostilidade a partir de interpretações teológicas sobre as entidades cultuadas, embora reconheça a necessidade de respeito. Lopes, por sua vez, introduz uma importante camada de questionamento metodológico, que, embora não negue o problema, sugere a necessidade de dados mais robustos para uma compreensão completa. Independentemente das nuances e das justificativas, o impacto na vida das vítimas é inegável e devastador. A baixa taxa de registro de ocorrências é um sintoma da falta de amparo percebida por essas comunidades e da urgência em fortalecer os mecanismos de denúncia e proteção.
Para pavimentar o caminho em direção a uma paz inter-religiosa duradoura, é imperativo que a sociedade brasileira, o Estado e as próprias lideranças religiosas de todos os credos se engajem em um diálogo construtivo. Isso implica em ir além das diferenças teológicas e focar nos valores humanos universais de respeito, dignidade e coexistência. É fundamental que se promova a educação sobre a diversidade religiosa e que se desmistifiquem preconceitos, combatendo o senso de exclusividade que alimenta a intolerância. Campanhas de conscientização, formação de lideranças religiosas para o diálogo inter-religioso e a garantia de que as leis que protegem a liberdade de culto sejam efetivamente aplicadas e fiscalizadas são passos cruciais. A responsabilização dos agressores, através do sistema de justiça, também é essencial para enviar uma mensagem clara de que atos de racismo e intolerância religiosa não serão tolerados. O Brasil tem a vocação e a diversidade para ser um exemplo de convivência pacífica entre diferentes fés; o desafio está em transformar essa vocação em realidade para todos os seus cidadãos.
Fonte: https://folhagospel.com