A Igreja da Inglaterra enfrenta uma significativa controvérsia interna após a divulgação de sua oração oficial para a Copa do Mundo. Membros do Sínodo Geral, o principal corpo legislativo da Igreja, formalizaram críticas contundentes, classificando a formulação como teologicamente superficial e religiosamente iliterata, especialmente pela ausência de referências explícitas a Jesus Cristo. A oração também gerou debate por uma frase que evoca a infame “Mão de Deus” do futebol, enquanto líderes eclesiásticos defendem o tom informal como uma estratégia para alcançar um público mais amplo.
As objeções foram apresentadas através de questões escritas antes de uma reunião do Sínodo Geral, realizada recentemente em York. Os questionamentos apontaram que, em suas 22 linhas, a prece não nomeava Jesus, uma omissão considerada grave por parte dos críticos.
Lançada em 11 de junho pela equipe de comunicação da Igreja para marcar o início do torneio da FIFA, a oração foi amplamente compartilhada nas plataformas de mídia social da instituição. Abrindo com uma invocação ao “Deus de glória”, o texto convidava os fiéis a perceberem “a mão de Deus na criatividade de cada chute de falta com curva, passe sedoso ou defesa impossível”, e a manterem compaixão e perspectiva diante de erros como chutes ruins, pênaltis perdidos e decisões controversas do árbitro de vídeo (VAR). A oração concluía com o desejo de que o caminho para a vitória servisse a um propósito maior do que apenas o triunfo da nação vencedora, promovendo a união de todos os povos que compartilham a glória divina.
A frase que mais atraiu críticas foi “a mão de Deus”. Este termo é imediatamente reconhecido no universo do futebol como uma alusão ao gol ilegal marcado por Diego Maradona contra a Inglaterra nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986. Naquele jogo, Maradona deliberadamente usou a mão para empurrar a bola para o gol, um ato que o árbitro não percebeu, resultando na vitória da Argentina por 2 a 1. O próprio Maradona, posteriormente, confessou que o gol foi marcado “um pouco com a cabeça e um pouco com a mão de Deus”, tornando o incidente um dos momentos mais controversos e célebres da história do esporte.
O Reverendo Jeremy Moody, sacerdote da diocese de Oxford, assinalou que a oração foi ridicularizada online por sua “iliceracia religiosa” e pela infeliz referência ao gol de Maradona. Ele questionou os procedimentos de aprovação para tais mensagens e se os responsáveis pela redação de orações devem ser cristãos praticantes. Paralelamente, Bradley Smith, membro leigo do sínodo da diocese de Chichester, argumentou que a ausência de Jesus, mesmo com a oração invocando Deus, poderia ser intencional ou um descuido, e solicitou a identificação dos responsáveis pela encomenda, redação e aprovação do texto.
A Defesa Eclesiástica
Em resposta às críticas, o Bispo de Lichfield, o Reverendo Michael Ipgrave, que preside a comissão litúrgica da Igreja – o órgão responsável por supervisionar as formas de culto –, defendeu a oração. Ele explicou que textos religiosos elaborados para plataformas digitais podem adotar um tom e uma linguagem distintos daqueles formalmente autorizados para o culto público, distanciando-se da liturgia oficial da Igreja.
Ipgrave assegurou que as orações divulgadas através dos canais digitais da Igreja da Inglaterra são preparadas por membros da equipe com formação teológica e passam por um processo interno rigoroso de revisão e aprovação. Ele enfatizou que eventos de relevância nacional, como a Copa do Mundo, representam uma oportunidade para engajar pessoas além do público tradicional da Igreja, justificando assim a adoção de um tom mais acessível e informal.
Relativamente à ausência de uma invocação a Jesus, Ipgrave esclareceu que o formato da oração em questão difere de um “collect” formal – uma oração breve e geral –, a qual ele esperaria que terminasse com uma referência a Cristo. Ele reiterou que a equipe de comunicação da Igreja produz um vasto leque de conteúdos para apoiar sua missão de evangelismo, discipulado e engajamento com o público em geral, com materiais adaptados a diferentes audiências e plataformas.
Repercussão Externa
A controvérsia transcendeu os círculos internos da Igreja. Em seu podcast “Irreverend”, o Reverendo Jamie Franklin descreveu a oração como “mal escrita, teologicamente rasa, embaraçosamente pouco séria, e um símbolo perfeito dos problemas atuais da instituição”, reforçando a percepção de que a Igreja estaria comprometendo sua identidade em sua busca por maior relevância social.